Uma mudança histórica no varejo do vizinho Espírito Santo, acendeu o alerta entre empresários em Minas Gerais. O motivo é que partir de 1º de março de 2026, todos os supermercados e atacarejos capixabas passarão a fechar aos domingos, em cumprimento à nova Convenção Coletiva de Trabalho (2025–2027).
A medida, inédita no país em escala estadual, transforma o estado capixaba em um laboratório nacional, já que o período de fechamento segue até outubro de 2026, funcionando como um projeto-piloto para avaliar impactos econômicos, sociais e trabalhistas.
Minas Gerais
No mesmo direcionamento, Minas Gerais acompanha cada passo com atenção redobrada. Isso porque um projeto semelhante já tramita na Assembleia Legislativa (ALMG): o PL 4.651/2025, de autoria do deputado Coronel Henrique (PL), que propõe restringir o funcionamento de supermercados em todo o território mineiro aos domingos.
E caso o modelo capixaba apresente resultados positivos, seja na redução de custos operacionais, na melhoria das condições de trabalho ou até no estímulo à convivência familiar dos colaboradores, cresce a possibilidade de o debate ganha força por aqui.
— A experiência vizinha poderá servir como argumento direto para parlamentares que defendem a medida em Minas, reforçando a viabilidade de sua adoção — avalia o economista Lazaro Ribeiro.
Por outro lado, a reação do setor produtivo, dos consumidores e das entidades representativas também será determinante.
— Se houver impacto negativo nas vendas, aumento da pressão sobre outros dias da semana ou insatisfação generalizada da população, o PL mineiro pode enfrentar maior resistência durante sua tramitação — conclui.
Seriedade
A reportagem ouviu o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Divinópolis (Sincomércio), Gilson Teodoro Amaral, que vê a discussão sobre o fechamento de supermercados aos domingos, como anunciado no Espírito Santo, extremamente relevante e merece ser tratada com seriedade.
— A proposta pode até se inspirar em modelos europeus, mas é fundamental lembrar que o contexto brasileiro é completamente diferente, tanto social quanto econômico — avalia.
Para Amaral, a realidade brasileira vive em outro contexto, principalmente no que se diz na falta de mão de obra qualificada.
— No Brasil, especialmente no comércio, vivemos hoje um paradoxo: existe abundância de pessoas em idade produtiva, mas falta mão de obra disponível e qualificada para trabalhar. Supermercados em vários estados já enfrentam dificuldades reais para formar equipes completas, o que tem levado muitos empresários a reduzir horários ou até fechar as portas aos domingos por absoluta falta de profissionais — pontua.
Distorções estruturais
Para Amaral, esse problema não decorre exclusivamente das condições do setor, mas também de distorções estruturais do país.
— Enquanto empresários lutam para manter suas operações funcionando e gerar empregos, o Brasil ainda coleciona milhões de pessoas dependentes de auxílios governamentais permanentes. Programas sociais são importantes e necessários, mas devem servir de ponte para o mercado de trabalho, não de substituto. Quando se cria um ambiente em que é possível sobreviver sem trabalhar, o resultado inevitável é a escassez de mão de obra produtiva, e isso afeta diretamente a economia — define.
O presidente do Sincomércio ressalta ainda, que fechar supermercados aos domingos, tende a gerar uma série de impactos econômicos difíceis de ignorar.
— Domingos é um dos dias de maior movimento e conveniência para o consumidor, por isso, tende a reduzir faturamento, diminuir arrecadação de impostos, prejudicar empregos existentes e limitar a competitividade do setor. O comércio é uma das engrenagens mais importantes da economia nacional — analisa Amaral.
Capacitação
Gilson Amaral acredita que o caminho correto é outro.
— Teríamos que ter políticas de incentivo à capacitação e ao emprego, uma revisão responsável dos incentivos assistenciais, alinhando-os à reinserção produtiva. Além da flexibilização das regras trabalhistas para o comércio e também contar com um ambiente econômico mais favorável ao empreendedorismo — conclui.
Fonte: agoracomvoce.com.br
